HACKS: Ava e Deborah sempre foram endgame
Hacks terminou ontem (28) e eu ainda permaneço naquele estado estranho que algumas obras deixam quando acabam: a sensação de que um universo inteiro continua existindo em algum lugar, mesmo depois que os créditos sobem. Talvez porque nunca tenha sido apenas uma comédia. Era uma série sobre ego, envelhecimento, ressentimento, ambição, solidão, crueldade emocional e, sobretudo, sobre pessoas que aprenderam a sobreviver transformando as próprias vulnerabilidades em mecanismos de defesa.
Inclusive, escrever sobre séries nem costuma fazer parte do tipo de conteúdo que publico por aqui. Apesar de estar sempre assistindo alguma coisa, raramente sinto vontade de transformar essa experiência em texto. Mas Hacks me atravessou de um jeito tão específico que ignorar isso parecia impossível.
Para quem ainda não assistiu — por favor, assista — Hacks, produção original da HBO Max, acompanha Deborah Vance, uma lendária comediante de Las Vegas interpretada magistralmente por Jean Smart, que vê sua carreira ameaçada pela própria indústria que ajudou a alimentar. Na tentativa de “modernizar” sua imagem, ela passa a trabalhar com Ava Daniels, uma jovem roteirista cancelada da internet, vivida por Hannah Einbinder em seu primeiro papel como atriz. O que começa como uma relação profissional profundamente hostil se transforma, aos poucos, em uma das dinâmicas mais sofisticadas e emocionalmente imprevisíveis da televisão recente.
Cinco temporadas sem perder o fôlego. E talvez o mais impressionante seja justamente isso: a escrita de Hacks jamais perdeu a consciência de si mesma. A série se tornava mais afiada, mais amarga, mais política a cada temporada — algo raro dentro da televisão contemporânea, especialmente no território da comédia, onde muitas produções começam a repetir fórmulas de sucesso já no segundo ou terceiro ano.
Hacks fez o contrário. Cresceu junto de suas personagens. E isso não sou eu quem está dizendo. A própria crítica reconheceu esse nível de consistência: ao longo de cinco temporadas, a série manteve índices raríssimos de aprovação no Rotten Tomatoes, alcançando impressionantes 100% de aprovação geral. Um desempenho incomum para uma produção que permaneceu cinco anos no ar sem perder identidade, inteligência ou força criativa.
Também é impossível ignorar o impacto que Jean Smart e Hannah Einbinder tiveram ao longo dessas temporadas. Jean Smart dominou as premiações desde a estreia da série. Sua interpretação como Deborah Vance lhe rendeu Emmys, Critics Choice Awards, SAG Awards e Globos de Ouro consecutivos.
Deborah poderia facilmente ter se tornado apenas uma caricatura de uma artista envelhecida tentando permanecer relevante. Mas Jean Smart construiu algo muito mais desconfortável e interessante do que isso: uma mulher brilhante, cruel, insegura, vaidosa, ressentida, hilariante e profundamente solitária.
Hannah Einbinder também merece um reconhecimento enorme. Além de Hacks ter sido seu primeiro papel como atriz, sua interpretação de Ava Daniels lhe garantiu indicações consecutivas ao Emmy, ao Globo de Ouro e ao Critics Choice Awards, consolidando Ava como uma das personagens mais complexas, inquietas e cheias de nuances da televisão recente. Em 2025, Hannah finalmente conquistou seu primeiro Emmy de Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Comédia pelo papel, coroando uma performance que já vinha sendo apontada há anos como um dos grandes trunfos da série.
Uma das coisas mais singelas daquela vitória tenha sido justamente o discurso que Hannah fez ao subir no palco. Um discurso profundamente alinhado ao tom político, humano e crítico que Hacks sempre carregou — e também às posições que ela costuma defender publicamente em suas redes sociais. Em um momento em que tantas celebridades parecem medir cuidadosamente cada palavra para não desagradar ninguém, ela escolheu usar aquele espaço para se posicionar.
E talvez o mais impressionante seja que Hannah nunca desapareceu diante de uma atriz do tamanho de Jean Smart. Muito pelo contrário. Ela conseguiu construir sua Ava como uma presença igualmente magnética, fazendo com que a série jamais parecesse conduzida por apenas uma protagonista.
Deborah e Ava funcionavam como dupla porque existia — e muito — atrito. Existia desequilíbrio emocional. Existia admiração atravessada por ressentimento. Existia uma química prestes a explodir o tempo inteiro, como uma bomba-relógio emocional que nenhuma das duas conseguia — e, talvez no fundo, nem quisesse — desarmar. E existia uma troca artística tão poderosa entre Jean Smart e Hannah Einbinder que, muitas vezes, parecia impossível separar onde terminava o talento individual de cada uma e onde começava a força daquela conexão em cena.
As duas eram completamente únicas à sua própria maneira, com ritmos, presenças e sensibilidades muito diferentes. Mas, em determinados momentos, parecia que se fundiam em uma coisa só. Como se Deborah e Ava funcionassem quase como extensões emocionais uma da outra — duas mulheres tentando desesperadamente se afastar enquanto inevitavelmente gravitavam de volta para o mesmo centro.
Eu nunca fui exatamente apaixonada por séries de comédia porque quase tudo me parecia excessivamente caricato, previsível ou escrachado. Parte disso também vinha do fato de que o humor americano opera de maneira muito diferente da nossa lógica de humor no Brasil. Assim como a língua inglesa possui ritmos e construções próprias, o humor também carrega referências culturais e tempos específicos que nem sempre atravessam plenamente alguém de fora daquela vivência.
Em muitos casos, eu compreendia racionalmente a piada, mas não necessariamente era afetada por ela. Como se existisse uma pequena distância entre o que a série pretendia provocar e aquilo que efetivamente chegava até mim. E Hacks alterou completamente essa percepção.
A série, criada por Lucia Aniello, Jen Statsky e Paul W. Downs, possui uma inteligência muito particular: consegue ser absurdamente engraçada enquanto discute misoginia, etarismo, inteligência artificial, crise ambiental, abandono emocional e a corrosão provocada pela indústria do entretenimento sem jamais soar didática, panfletária ou artificial.
As piadas eram brilhantes, claro, mas o que verdadeiramente sustentava a narrativa era a maneira como a série compreendia fragilidade humana. O medo do envelhecimento. A necessidade permanente de validação. O ressentimento acumulado ao longo da vida. O ego como mecanismo de autopreservação. E essa dificuldade quase universal que algumas pessoas possuem de admitir que precisam umas das outras.
Talvez o maior mérito de Hacks fosse justamente esse: ninguém parecia descartável. Todos possuíam contradições, pequenas obsessões, manias e vulnerabilidades que faziam aquele universo parecer organicamente vivo. Até os coadjuvantes existiam para além de arquétipos prontos.
Jimmy, interpretado pelo próprio Paul W. Downs, e Kayla, vivida pela brilhante Megan Stalter, são um dos maiores exemplos disso. Confesso que, inicialmente, eu achava Kayla profundamente irritante: invasiva, mimada, inconveniente. Parecia existir apenas como um alívio cômico caótico. Mas, conforme as temporadas avançavam, comecei a perceber que parte desse incômodo vinha justamente da maneira como mulheres espalhafatosas, emocionalmente intensas e aparentemente “fúteis” costumam ser tratadas como insuportáveis antes mesmo de serem compreendidas.
E, aos poucos, o espectador também passava a enxergá-la com mais profundidade. Por trás da caricatura existia uma mulher desesperada por pertencimento, reconhecimento e afeto. A relação dela com Jimmy se tornava cada vez mais bonita justamente porque ele também passava a vê-la para além de todo o caos que carregava.
No fim, os dois acabaram se transformando em uma das relações mais honestas da série inteira.
Me afeiçoei profundamente a quase todos os personagens. Hacks possuía uma característica rara: conseguia manter Deborah e Ava no centro emocional da narrativa sem transformar os demais em meros acessórios de cena. A série concedia humanidade, complexidade e voz própria a praticamente todos ao redor delas.
Vou sentir falta da Josefina, interpretada por Rose Abdoo, do Marcus, vivido por Carl Clemons-Hopkins, da DJ Vance, de Kaitlin Olson, da Kiki, interpretada por Poppy Liu, e do Damien, vivido por Mark Indelicato. Mesmo aparecendo menos do que Deborah e Ava, todos pareciam pessoas completas, atravessadas por inseguranças, afetos, desejos e frustrações próprias.
E isso acontecia até com personagens difíceis de suportar. Bob Lipka, interpretado pelo incrível Tony Goldwyn, conseguia ser absolutamente insuportável e deliciosamente detestável ao mesmo tempo. O mesmo vale para Marty, vivido por Christopher McDonald, que facilmente poderia ter se tornado apenas mais um milionário arrogante e esquecível nas mãos de um ator menos carismático. Mas Hacks possuía essa habilidade raríssima de tornar até os personagens mais questionáveis fascinantes de assistir.
E então há Deborah Vance e Ava Daniels.
Jean Smart e Hannah Einbinder fizeram algo raríssimo na televisão contemporânea: criaram uma dinâmica que ultrapassa qualquer definição confortável. Elas brigavam, se feriam, se admiravam, se sabotavam, se ressentiam e se salvavam constantemente. Era um eterno movimento de aproximação e destruição. E talvez tenha sido justamente por isso que a relação delas funcionou tão bem.
Para mim, Hacks sempre foi uma história de amor. Não no sentido tradicional da palavra, mas naquela forma torta, intensa, profundamente emocional e às vezes destrutiva que algumas relações humanas assumem quando duas pessoas passam a ocupar um espaço inevitável na vida uma da outra.
Ava jamais foi tão compreendida por alguém quanto foi por Deborah. E Deborah, por sua vez, talvez nunca tenha sido tão enxergada em toda a sua complexidade quanto foi por Ava. As duas conseguiam acessar as partes mais frágeis, brilhantes, cruéis e inseguras uma da outra como ninguém mais conseguia.
Uma relação turbulenta, orgulhosa, feroz e emocionalmente caótica, mas ainda assim inevitável. Porque, no fim, parecia impossível imaginar uma existindo completamente sem a outra.
A grande virada da finale talvez tenha sido justamente o instante em que Deborah e Ava finalmente compreenderam — ainda que da maneira mais avassaladora possível — que haviam se tornado inevitáveis uma para a outra.
Ava obrigava Deborah a confrontar sua vulnerabilidade, seu medo do envelhecimento, sua solidão e a dureza que construiu para sobreviver em uma indústria profundamente misógina. Deborah, por sua vez, foi talvez a primeira pessoa a enxergar Ava para além da persona irônica, ansiosa e autodestrutiva que ela projetava para o mundo.
No fundo, as duas sabiam que possuíam uma à outra. E isso bastava.
O episódio 7, “Montecito”, talvez tenha sido a maior materialização disso tudo, especialmente para nós, Avorah shippers. Deborah e Ava literalmente fingem ser um casal durante um final de semana inteiro para que Deborah consiga pegar uma roupa emprestada para o tão aguardado show no Madison Square Garden — espetáculo que, ironicamente, sequer chega a acontecer.
Aquilo funcionou claramente como um presente para os fãs, mas também dizia absolutamente tudo sobre as duas personagens. Porque Hacks sempre compreendeu que intimidade não nasce apenas do romance explícito. Ela também surge da convivência, dos silêncios, das pequenas cumplicidades, da dependência emocional e desses instantes aparentemente banais em que duas pessoas simplesmente passam a funcionar juntas sem perceber.
No fim, Deborah e Ava continuaram sendo exatamente aquilo que a série sugeriu desde o começo: o saleiro e o pimenteiro uma da outra. Quem entende essa referência entende a série inteira.
E acho que parte da melancolia do encerramento também nasce daí: por mais que todos nós soubéssemos racionalmente que Deborah Vance e Ava Daniels não eram pessoas reais, existia alguma coisa naquela escrita, na atuação e na construção emocional da série que fazia parecer totalmente plausível cruzar com as duas na rua.
Deborah Vance parecia o tipo de celebridade que realmente existiria em algum universo paralelo da cultura americana. E talvez esse seja um dos maiores elogios que posso fazer a Hacks. A série construía personagens fictícios com uma humanidade tão convincente que começávamos a fantasiar situações completamente possíveis para elas.
Eu, particularmente, consigo imaginar Deborah Vance fazendo um megashow na Praia de Copacabana dentro dessa nova onda de artistas lendários convidados para o “Todo Mundo no Rio”. E tenho certeza de que ela pisaria naquele palco coberta de paetê, distribuindo piadas ácidas sobre envelhecimento, fama, brasileiros emocionados e até aquelas eternas mensagens de “come to Brazil” que celebridades recebem há anos na internet — só que, no caso dela, depois de tanto insistirem, Deborah Vance finalmente teria vindo.
Não posso deixar de mencionar as participações especiais ao longo das temporadas, que surgiam quase como pequenos presentes para quem acompanha televisão: Cherry Jones, Leslie Bibb, Carol Burnett, Laurie Metcalf, J. Smith-Cameron e até Bob Mackie, o lendário estilista responsável por vestir nomes como Cher, Tina Turner e Madonna.
E é impossível falar sobre Deborah Vance sem mencionar os figurinos impecáveis concebidos pela figurinista Kathleen Felix-Hager. Deborah se vestia como alguém que precisava ocupar todos os espaços antes que tentassem diminuí-la. Roupas extremamente maximalistas ajudavam a construir essa persona quase mítica de uma mulher que transformou a própria imagem em armadura.
Mas as roupas também revelavam algo muito mais melancólico: sua solidão, sua vaidade, seu apego ao passado e essa necessidade constante de continuar sendo vista. Deborah Vance não apenas entrava em cena. Ela dominava visualmente qualquer ambiente em que estivesse.
E aquele encerramento ao som de “Get Happy”, no dueto de Barbra Streisand e Judy Garland, foi um dos finais mais bonitos que assisti na televisão recente. Existe algo profundamente triste em acompanhar personagens que passaram anos fugindo de si mesmas finalmente aceitarem, ainda que minimamente, quem são.
Por mais que eu quisesse assistir a mais cinco temporadas, fico feliz que Hacks tenha terminado no auge.
E sinceramente? Se eu fosse falar sobre tudo o que essa série despertou em mim, sobre a precisão de determinadas cenas, diálogos, silêncios, expressões e pequenas escolhas narrativas que me desmontaram emocionalmente ao longo desses anos, eu provavelmente passaria dias falando sem parar.
Porque Hacks não foi apenas uma série que assisti. Foi uma obra que, de alguma maneira muito específica, também reorganizou algo dentro de mim.
Agora, como a pessoa completamente delulu que sou, deixo aqui meu breve agradecimento aos criadores e às criaturas que transformaram Hacks na minha série conforto, alteraram minha relação com o humor e, quem sabe, até a minha forma de existir como uma mulher meio fora da caixinha.
Provavelmente isso nunca chegará até eles. Mas existe uma parte de mim que gosta de acreditar que certas obras encontram, de alguma maneira inesperada, as pessoas que ajudaram a atravessar. Então escolho confiar nisso.
Thank you, Lucia Aniello, Jen Statsky and Paul W. Downs, for creating one of the sharpest, funniest and most emotionally layered comedies I’ve ever watched. And thank you Jean Smart, Hannah Einbinder, Megan Stalter, Paul W. Downs and the entire cast for bringing these characters to life with so much depth, vulnerability and humanity.
Hacks didn’t just make me laugh. It completely changed the way I experience comedy and television, and maybe even the way I understand certain parts of myself. I already miss spending my Thursday nights with Ava Daniels and Deborah Vance more than I can explain.
What you created genuinely shifted the landscape of modern comedy. Hacks proved that a series can be brutally funny while also being emotionally devastating, politically aware and profoundly intimate.
And now, please clear some more space on those shelves, because there are definitely more awards coming your way.








Oii! Li seu artigo no dia em que você publicou e logo comecei a série. Enfim... obrigada pela recomendação. Estou gostando muito.